Lei e graça, o pecado e a cruz

 "Mas vejo nos meus membros outra lei que batalha contra a lei do meu entendimento e me prende debaixo da lei do pecado que está nos meus membros. Miserável homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte? Dou graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor."

(Romanos 7:23-25)

O texto acima foi escrito pelo apóstolo Paulo. Quem é ele? Nada mais nada menos que o homem que o Espírito Santo permitiu que organizasse as doutrinas básicas do Evangelho nas cartas que hoje estão no Novo Testamento. O capítulo 7 da carta que ele escreveu à igreja de Roma é um dos textos mais polêmicos e comentados por estudiosos, pois, como Paulo fala de uma luta da carne contra a vontade de Deus, há aqueles que consideram que ele está falando de um conflito que ele enfrenta constantemente e há também aqueles que afirmam que esse conflito faz parte do período dele antes da conversão, pois, na visão deles, um santo não pode enfrentar tal luta.

Bom, eu não sou especialista em interpretação bíblica, mas não acredito nessa segunda interpretação. Em nenhum momento Paulo diz "antes da conversão, éramos assim e assado". E outra: A Carta aos Romanos não é uma espécie de "teologia sistemática". Ela é uma carta que Paulo escreveu para resolver conflitos que havia na igreja de Roma, lidando principalmente com os judeus que achavam-se melhor que os não-judeus. No meio disso tudo, ele faz uma linda exposição do Evangelho, com textos maravilhosos tratando da pecaminosidade, de como somos imperdoáveis mas Deus em Cristo nos perdoou, de como seu Espírito Santo nos regenerou e garantiu que nada pode nos separar desse amoroso amor com que o Amor nos amou! 

No entanto, não é uma teologia sistemática. A gente faz divisões para entender melhor o livro, mas não é só isso.

Outro motivo pelo o qual discordo da interpretação de que Paulo não poderia ter esses conflitos por ser santo (ou seja, convertido, templo do Espírito Santo, preservado pelo próprio Deus) é que a minha experiência me mostra que a minha consciência não fica sossegada. Pelo contrário, eu me sinto constantemente sujo, depravado e pecador, apesar de saber que meu Pai me ama e enviou seu Filho para morrer minha morte para então eu poder ter o privilégio de ser seu filho adotado. E todos os santos já sentiram-se como que numa guerra contra o pecado - na qual muitas vezes sentimos que somos fuzilados.

Sabemos, então, que todos nós somos pecadores e merecemos o fogo do Inferno.

Essa é a Lei. 

Todo ser humano possui certa consciência da Lei, isto é, todos sabem que existe um certo e existe um errado. Todavia, o pecado desfoca esse entendimento, e por isso há quem veja certa ação como certa e quem a veja como errada.

Chega um dia em que começamos a nos sentir diferentes. Sentimos que nossas meras intenções são erradas, sentimos que tudo o que fazemos parece a ação de um demônio devorador de criancinhas. E não há o que possamos fazer, pois não podemos sair de nosso próprio "eu"! Precisamos fugir para algum lugar, mas não há lugar para se abrigar!

De repente, encontramos esse lugar seguro, como se não procurássemos nada.

A graça.

Graça é favor imerecido. Graça é algo que se faz por alguém que não merece. E acerca dessa graça nós aprendemos que ela provém do Pai, que com muito amor enviou Jesus Cristo, que sendo Ele mesmo Deus e homem, durante apenas seis horas suportou todo um sofrimento que nós não aguentaríamos. É verdade que desobedecemos à Lei. Mas Jesus a cumpriu, e como Ele é Deus, foi infinitamente cumprida. Ele ressuscitou e nos deu o privilégio de sermos seus irmãos, filhos do mesmo Pai que o gerou de uma forma inimaginável, visto que o Filho nunca foi criado por ninguém e sempre existiu, exatamente como o Pai e como o Espírito Santo, que provém do Pai e do Filho. 

Agora, não há mais razão para chorar! Só precisamos obedecer aos mandamentos que Jesus nos dá, que são: Ame a Deus acima de tudo, ame ao seu próximo como a ti mesmo.

No entanto, mesmo esses dois princípios são tão difíceis de serem cumpridos, e nos angustiamos tanto quando percebemos que não conseguimos cumprir!

Mas alegremo-nos, pois não estamos lutando sozinhos! Se cairmos, sua mão nos levantará. E a garantia de que não nos perderemos é o Espírito Santo, que, a partir do momento que nos convertemos, passou a habitar em nós. Unidos, formamos a Igreja do Senhor Jesus Cristo, que é também seu Corpo Místico. Estamos unidos a Ele de uma forma tão magnífica e uns aos outros também!

Somos miseráveis. Mas graças a Deus por nosso Senhor Jesus Cristo!

Há um hino que diz assim:

"Mas um dia eu senti
meu pecado e vi
sobre mim a espada da Lei;
apressado fugi,
em Jesus me escondi
e abrigo seguro nEle achei".

É um hino muito lindo e muito cantado pela cristandade brasileira, mas não percebemos como essa estrofe é rica teologicamente. Um dia nós sentimos mesmo essa espada; mas éramos mortos. Um cadáver não sente espada. Quando Deus nos ressuscitou espiritualmente, sentimos quão dura é essa espada. O único abrigo seguro é ao pé da Cruz. Somente em Cristo, pela graça, através da Fé, podemos dar glória a Deus.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A Parúsia continua relevante após 2 mil anos

Unidade mística